Há dores que se tornam mais profundas porque vêm acompanhadas de injustiça. Uma acusação falsa, uma amizade que se transforma em hostilidade, uma palavra distorcida por quem conhece nossa história. Nessas horas, a mente ensaia respostas, o coração exige reparação e o sono demora a chegar. Queremos que alguém conheça a verdade e nos defenda.
Como oramos quando isso acontece? Conseguimos apresentar nossa indignação ao Senhor? Ou deixamos que a mágoa determine nossas palavras e atitudes?
O Salmo 35 nos conduz à oração de um homem ferido. Davi enfrenta perseguições, acusações e traições. Em três movimentos repetitivos (versículos 1–10, 11–18 e 19–28), ele apresenta sua aflição, pede a intervenção de Deus e expressa seu compromisso de louvar. O sofrimento reaparece, mas a oração também. A fé aprende a voltar ao Senhor tantas vezes quantas forem necessárias.
Quando a injustiça encontra nosso coração
Davi conhecia a crueldade de receber o mal em troca do bem. Havia se entristecido com a enfermidade de pessoas que, depois, celebraram sua queda. Aqueles por quem chorara passaram a feri-lo. É uma dor que muitos reconhecem: descobrir que o cuidado oferecido não encontrou a mesma disposição do outro lado.
A Escritura acolhe esse lamento. Com isso, percebemos que também podemos falar com Deus sobre a humilhação, a decepção e o medo. Não precisamos esperar que as emoções se acalmem para procurar sua presença. Podemos nos aproximar justamente porque estamos perturbados. Entretanto, precisamos levar também nosso coração ao exame do Senhor. A dor pode tornar nossa percepção limitada, e nem toda contrariedade significa perseguição. Podemos sofrer injustiças reais e, ao mesmo tempo, precisar de correção na maneira como reagimos. Pedir que Deus defenda nossa causa inclui dispor-nos a reconhecer nossos pecados e abandonar aquilo que desagrada a ele.
A confiança cristã cresce quando entregamos ao Senhor tanto as acusações que recebemos quanto as respostas que desejamos dar.
Quando nossa aflição se transforma em oração
Davi pede que Deus intervenha. A linguagem de batalha expressa sua necessidade de proteção diante de inimigos poderosos. Mas, em meio ao pedido de socorro, surge uma súplica profundamente pessoal: “Dize à minha alma: ‘Eu sou a sua salvação’” (Sl 35.3, NAA). Ele precisa de livramento e da certeza de que pertence ao Deus que salva.
Também precisamos dessa segurança. Às vezes, a acusação ou a maldade de alguém ocupa tanto espaço dentro de nós que quase esquecemos as promessas do Senhor. A oração nos reconduz à sua Palavra e nos lembra de quem governa nossa vida.
Alguns pedidos desse salmo são severos: Davi clama pelo juízo de Deus sobre os que praticam o mal. Essas palavras exigem reverência. Não se trata de um pedido para algo mal. São apelos à justiça divina diante de uma maldade concreta. Então, não confunda, o texto não nos autoriza a transformar irritações pessoais em desejos de destruição.
Ao entregar o julgamento ao Senhor, renunciamos à vingança e reconhecemos que somente Ele conhece perfeitamente os fatos e os corações. Podemos pedir que Deus interrompa a violência, desfaça a mentira e proteja os oprimidos. Podemos também orar pelo arrependimento de quem nos fere, conforme o mandamento de amar nossos inimigos (Mt 5.44). A justiça de Deus e a misericórdia para com pecadores devem orientar nossas petições.
Confiar nele também nos permite buscar ajuda, denunciar o mal e recorrer aos meios legítimos de proteção. Fazemos isso com o desejo de que a verdade prevaleça, submetendo nossos passos à vontade do Senhor. Essa entrega alcança também o tempo da resposta. Davi sente a demora e pede urgência. Nós podemos fazer o mesmo, sem presumir que Deus tenha de agir no prazo ou da maneira que imaginamos. Sua providência permanece sábia mesmo quando ainda não conseguimos compreender seus caminhos.
Quando olhamos para Cristo
O sofrimento do justo encontra sua expressão perfeita em Jesus. Ele foi falsamente acusado, rejeitado e odiado sem motivo. Em João 15.25, o próprio Senhor aplica a si essa linguagem presente nos salmos. Ele conhece a injustiça por tê-la enfrentado.
Ao sofrer, Cristo entregou-se àquele que julga retamente (1Pe 2.23). Na cruz, carregou os pecados de seu povo; na ressurreição, venceu a morte. Por isso, nossa esperança tem um fundamento mais profundo do que a possibilidade de recuperar a reputação ou resolver um conflito. Somos acolhidos por Deus mediante a justiça de Cristo, recebida pela fé. Mesmo quando podemos afirmar nossa inocência diante de determinada acusação, continuamos dependendo inteiramente da graça para nos apresentar diante do Senhor.
Em Cristo, temos um Salvador que compreende nossa dor, intercede por nós e nos preserva para a vida eterna. Nenhuma injustiça poderá anular sua obra. E nenhuma maldade escapará ao seu julgamento final.
Quando a confiança se torna adoração
Ao longo do salmo, Davi assume o compromisso de alegrar-se no Senhor, agradecer na congregação e celebrar sua justiça. Seu olhar se dirige ao caráter daquele que o socorre. Esse movimento nos ensina a cultivar a gratidão enquanto esperamos. Podemos agradecer pela presença de Deus, pelo sustento diário, pela comunhão da igreja e pela salvação que já recebemos em Cristo. Quando vier o livramento, teremos também o privilégio de testemunhar sua bondade.
O Senhor se importa com o bem de seus servos. Isso não constitui uma promessa de riqueza ou de uma vida sem perdas. É a segurança de que nosso Pai cuida de nós e conduz nossa história segundo seus propósitos santos.
Quais causas você tem carregado sozinho? Que palavras continuam ferindo sua memória? Que situação desperta em você o desejo de revidar? Apresente tudo ao Senhor. Peça proteção, justiça e sabedoria. Peça também um coração que permaneça obediente enquanto espera. O Deus que ouve seu clamor é digno de sua confiança.
Oração
Senhor, tu conheces as injustiças que sofremos e os pecados que ainda habitam em nós. Defende nossa causa segundo a tua justiça. Livra-nos da mentira, da violência e do desejo de vingança. Concede arrependimento aos que praticam o mal e impede que continuem ferindo outras pessoas. Firma nossa esperança em Cristo e ensina-nos a reconhecer teu cuidado durante a espera. Que nossa vida testemunhe tua bondade e nossos lábios celebrem teu nome. Em nome de Jesus. Amém.
Rev. Aldo Marcos Teixeira