Quando falamos sobre a graça de Deus, normalmente pensamos na salvação. E com toda a razão. Não existe dádiva maior do que ser resgatado da condenação, perdoado dos pecados e reconciliado com Deus por meio de Jesus Cristo. É pela graça que somos salvos, mediante a fé, e isso não vem de nós: é dom de Deus (Ef 2.8-9).
A graça salvadora é, portanto, especialmente preciosa para o cristão. Não fizemos nada para merecê-la. Estávamos mortos em nossos delitos e pecados, incapazes de produzir a própria reconciliação com Deus. Contudo, por causa de seu grande amor, Deus nos deu vida juntamente com Cristo (Ef 2.1-5).
Entretanto, a graça não deixa de nos alcançar depois da conversão. Deus não nos salva e, em seguida, nos abandona para que prossigamos sozinhos. A graça que nos encontrou também nos sustenta. Ela nos ensina, corrige, fortalece e conduz. Deus nos salvou para que vivamos com ele, cresçamos em sua presença e aprendamos diariamente a depender dele.
Por isso, precisamos parar e observar. A vida cristã está repleta de manifestações da bondade de Deus que podem passar despercebidas quando vivemos apressadamente.
1. A graça não foi um acontecimento isolado na sua vida
Todo cristão possui uma história de graça. Talvez consiga identificar o período em que compreendeu o evangelho, arrependeu-se de seus pecados e creu em Jesus. Talvez não saiba determinar o dia exato, mas reconhece que Deus transformou sua vida e o conduziu à fé.
A conversão é uma obra da graça. Contudo, ela não é a última experiência da graça na vida cristã. É o começo de uma existência inteiramente dependente dela. Isso não significa que somos salvos repetidas vezes. A obra de Cristo é completa e suficiente. Por seu único sacrifício, ele garantiu definitivamente a redenção de seu povo. “Agora, pois, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).
Todavia, aquele que foi justificado ainda precisa ser santificado. O cristão continua enfrentando tentações, fraquezas, sofrimentos, dúvidas e pecados. Ele necessita diariamente da misericórdia, do ensino, da correção e do sustento de Deus.
Paulo tinha essa certeza quando escreveu: “Estou certo de que aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).
Deus começa a obra e também a conclui. Ele não nos acolhe como filhos para depois nos deixar entregues a nós mesmos. Nossa perseverança não depende apenas da firmeza de nossas mãos, mas, sobretudo, da fidelidade das mãos que nos sustentam.
2. Deus nos salvou para vivermos com ele
Às vezes apresentamos a salvação apenas como livramento do inferno. Esse livramento é verdadeiro e glorioso, mas a salvação envolve muito mais. Cristo não morreu somente para nos livrar de alguma coisa; ele morreu para nos conduzir a alguém. Pedro afirma que “Cristo sofreu uma única vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir vocês a Deus” (1Pe 3.18).
Esse é o coração da salvação: fomos conduzidos a Deus. O pecado havia rompido nossa comunhão com o Criador, mas Cristo removeu a culpa que nos separava dele. Agora podemos nos aproximar do Pai, não como estranhos ou inimigos, mas como filhos recebidos pela graça.
Deus nos salvou para vivermos em sua presença, desfrutarmos de sua comunhão e aprendermos dele. A vida cristã não consiste apenas em seguir um conjunto de normas. É uma vida de relacionamento com o Deus que se revelou em sua Palavra e nos adotou em Cristo.
Essa comunhão é cultivada pelos meios que o próprio Deus estabeleceu: a leitura das Escrituras, a oração, a participação na igreja, a comunhão com os irmãos, a pregação da Palavra e os sacramentos. Esses não são rituais vazios, mas meios de graça pelos quais Deus alimenta, instrui e fortalece seu povo.
A intimidade com Deus não é construída pela busca constante de experiências extraordinárias. Ela cresce quando ouvimos sua Palavra, falamos com ele em oração, obedecemos à sua vontade e aprendemos a reconhecê-lo também nas circunstâncias comuns da vida.
3. A graça nos ensina e nos transforma
A graça não apenas perdoa; ela também educa. Paulo escreveu:
“Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos. Ela nos educa para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos neste mundo de forma sensata, justa e piedosa” (Tt 2.11-12).
A graça jamais deve ser usada como autorização para permanecermos no pecado. A mesma graça que nos recebe como estamos não nos deixa como estamos. Ela modifica nossos afetos, confronta nossos ídolos e nos ensina a desejar aquilo que agrada a Deus.
Às vezes, a graça manifesta-se por meio do consolo. Em outras ocasiões, ela se apresenta como correção. É graça quando Deus alivia nossa dor, mas também é graça quando sua Palavra expõe um pecado que tentávamos esconder. É graça quando ele abre uma porta, mas também pode ser graça quando fecha um caminho que nos afastaria de sua vontade.
A disciplina do Pai não é ausência de amor. Pelo contrário, Deus disciplina aqueles a quem ama, para que participem de sua santidade (Hb 12.6,10). Até mesmo a correção que inicialmente nos entristece pode produzir “fruto pacífico de justiça” naqueles que por ela são exercitados (Hb 12.11).
Estamos acostumados a chamar de graça apenas aquilo que corresponde aos nossos desejos. Entretanto, Deus é gracioso também quando frustra nossos planos para preservar nossa alma, amadurecer nossa fé ou nos ensinar a depender dele.
4. A graça manifesta-se em nossa fraqueza
Temos dificuldade para aceitar nossas limitações. Gostaríamos de demonstrar força, controle e autossuficiência. Entretanto, Deus frequentemente utiliza nossas fraquezas para nos ensinar que sua graça é suficiente.
Paulo pediu três vezes que o Senhor removesse aquilo que chamou de “espinho na carne”. A resposta divina foi: “A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9).
A graça nem sempre remove imediatamente aquilo que nos aflige. Algumas vezes, Deus muda as circunstâncias; em outras, ele nos fortalece para atravessá-las. Em ambos os casos, continua sendo gracioso.
O relato da cura do cego de Betsaida também nos ajuda a pensar sobre isso. Jesus tomou aquele homem pela mão, conduziu-o para fora da aldeia e tratou pessoalmente de sua necessidade. A cura aconteceu em dois momentos: primeiro, ele passou a enxergar de maneira imperfeita; depois, viu tudo claramente (Mc 8.22-26).
Não devemos transformar cada detalhe do milagre em uma alegoria. Contudo, há uma aplicação pastoral coerente com o contexto. Assim como o cego começou a enxergar, mas ainda não distinguia tudo com clareza, os próprios discípulos estavam começando a compreender quem Jesus era. Pedro logo confessaria que ele era o Cristo, mas ainda demonstraria não entender plenamente a missão do Messias (Mc 8.27-33).
Algo semelhante ocorre em nosso crescimento espiritual. Deus abre nossos olhos, mas ainda temos muito a aprender. Já conhecemos a Cristo, mas nossa compreensão precisa amadurecer. Já fomos libertos do domínio do pecado, mas continuamos lutando contra sua presença. Já recebemos vida, mas aguardamos o dia em que a obra de Deus será plenamente consumada.
Nosso crescimento pode ser gradual, mas não está entregue ao acaso. Jesus não deixou aquele homem enxergando de maneira confusa. Do mesmo modo, não deixará inacabada a obra que começou em seu povo.
5. Precisamos aprender a perceber a graça cotidiana
Muitas vezes esperamos que a graça seja percebida apenas em acontecimentos espetaculares. Procuramos o extraordinário e ignoramos as demonstrações diárias da bondade de Deus.
Em minha própria caminhada, muitas vezes percebi Deus sendo gracioso ao enviar as pessoas certas nos momentos certos. Uma palavra, uma orientação, uma presença amiga ou uma ajuda inesperada chegaram quando eu mais precisava. Em outras ocasiões, pude reconhecer o livramento de Deus em situações que envolviam algum perigo.
Essas experiências não devem ser interpretadas de maneira supersticiosa, como se pudéssemos explicar com certeza todos os detalhes da providência. Também não significam que os cristãos nunca enfrentarão perdas, acidentes ou sofrimentos. A própria Bíblia registra a aflição de servos fiéis. São exemplos de quando Deus nos permite ver seus cuidados, onde pude perceber que ele continua nos abençoando e podemos reconhecer com gratidão que Deus governa as nossas vidas. Pessoas, circunstâncias e acontecimentos não estão fora de seu domínio. Muitas vezes, somente depois de algum tempo conseguimos perceber como ele nos protegeu, orientou ou preparou o auxílio necessário.
Como um exercício para sua meditação, procure pensar em exemplos próximos. Por exemplo, a graça cotidiana também pode ser percebida:
- quando a Palavra de Deus corrige nossos pensamentos;
- quando recebemos forças para resistir a uma tentação;
- quando somos levados a reconhecer e confessar um pecado;
- quando Deus nos ajuda a perdoar alguém;
- quando uma pessoa nos oferece consolo no momento certo;
- quando encontramos sabedoria para tomar uma decisão;
- quando recebemos paz em meio a uma situação que não podemos controlar;
- quando uma oração é respondida de maneira diferente da que esperávamos;
- quando somos preservados de perigos dos quais nem chegamos a tomar conhecimento;
- quando Deus nos concede mais um dia para conhecê-lo e servi-lo.
Nenhuma dessas coisas deve ocupar o lugar de Cristo ou do evangelho. A maior evidência da graça não está nas circunstâncias favoráveis, mas na cruz. É olhando para Cristo que temos certeza do amor de Deus, inclusive nos dias em que não conseguimos compreender sua providência. Porém, a cruz também nos ensina a olhar para o cotidiano com gratidão. Se Deus entregou seu próprio Filho por nós, podemos confiar que tudo aquilo de que verdadeiramente necessitamos será concedido segundo sua sabedoria e seu propósito (Rm 8.32).
6. A obra ainda não terminou
Ainda não somos aquilo que deveríamos ser. Carregamos fraquezas, repetimos erros e frequentemente demoramos a aprender. Em certos momentos, enxergamos apenas vultos e não conseguimos compreender claramente o que Deus está realizando. Ainda assim, não somos mais aquilo que éramos.
Deus já nos deu vida em Cristo. Seu Espírito habita em nós, sua Palavra nos transforma e sua graça continua trabalhando. Cada arrependimento sincero, cada desejo de obedecer, cada vitória sobre o pecado e cada passo em direção à maturidade testemunham que Deus não abandonou sua obra.
Nossa esperança final não está em alcançar uma vida sem dificuldades neste mundo. Esperamos o dia em que estaremos para sempre com Cristo. Agora conhecemos em parte, mas então conheceremos plenamente. Agora vemos como por espelho, de forma obscura, mas então veremos face a face (1Co 13.12). Até esse dia, vivemos pela graça.
Pare e perceba
Talvez você esteja esperando uma grande intervenção de Deus e, por isso, não tenha percebido as manifestações diárias de sua bondade. Pare por alguns instantes e observe sua caminhada.
Quem Deus enviou para ajudá-lo em um momento difícil? De quais perigos ele o livrou? Que portas foram fechadas para sua proteção? Que pecado sua Palavra tem confrontado? Em que fraqueza você está aprendendo a depender mais de Cristo? Que transformação, ainda que pequena, demonstra que o Espírito Santo continua trabalhando?
Não espere apenas o extraordinário. Reconheça a graça presente na Palavra que ensina, na oração que aproxima, na igreja que acolhe, na correção que restaura, no consolo que chega e na força que permite continuar.
A graça que nos salvou é a mesma que nos acompanha durante toda a caminhada. Deus não nos resgatou para vivermos distantes dele. Ele nos chamou para a comunhão consigo, para crescermos em santidade e para aprendermos diariamente de Cristo.
A vida cristã começa pela graça, prossegue pela graça e será concluída pela graça. Portanto, pare, observe e agradeça. Deus continua trabalhando.
Rômulo Nunes de Oliveira ( teologiasaudavel.com.br)